terça-feira, 19 de junho de 2012

Psicologia de um vencido



É muito triste se sentir vazio quando seu corpo está cheio de átomos, carbono, hidrogênio, cálcio e selênio. Sentir o cheiro do enxofre que inala de você mesmo, pensar que o fosforo poderia acabar com tudo e explodir de uma vez o que não leva a nada.
 O que é a vida se não uma espera interminável do trem da morte. Quando tudo vai ter fim? Quando o corpo vai poder respirar realmente e não só fingir. Os pensamentos inusitados, as horas amargas que são transformadas em cansaço e o passo de cada vez em um mato cheio de espinhos e você está descalço.
  A como seria bom se o tempo parasse e todas as perguntas respondidas sem ser em forma de analise, um simples porque sem nem ao menos um talvez que gera o insólito percorrer de quem não vai vencer. Somos perdedores natos, que juram que venceram alguma coisa, somos o fracasso dos fracassos, o circo de horrores.
 Apneia de vida sem fluxo, segmento básico do fracasso absoluto, somo somente ratos do esgoto sem memórias sem conforto. Amantes da irrealidade e do que faz pensar, a se a minha vida fosse diferente e se tudo vai mudar. Mas nada muda o tempo todo, felicidade passageira e confrontos incomuns, lutas que não são verdadeiras, pátria que não te leva a lugar algum.

  
Como dizia Augusto dos Anjos em

Psicologia de um vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundíssimamente hipocondríaco, 
Este ambiente me causa repugnância... 
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia 
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas 
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los, 
E há-de deixar-me apenas os cabelos, 
Na frialdade inorgânica da terra!

  Não somos nada, nunca seremos nada, morreremos sem ser nada, achando que somos alguma coisa.  


      Fernando Pessoa - TABACARIA
    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.

    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial