Psicologia de um vencido
É muito triste se sentir vazio quando seu corpo está cheio
de átomos, carbono, hidrogênio, cálcio e selênio. Sentir o cheiro do enxofre
que inala de você mesmo, pensar que o fosforo poderia acabar com tudo e
explodir de uma vez o que não leva a nada.
O que é a vida se não
uma espera interminável do trem da morte. Quando tudo vai ter fim? Quando o
corpo vai poder respirar realmente e não só fingir. Os pensamentos inusitados,
as horas amargas que são transformadas em cansaço e o passo de cada vez em um
mato cheio de espinhos e você está descalço.
A como seria bom se
o tempo parasse e todas as perguntas respondidas sem ser em forma de analise,
um simples porque sem nem ao menos um talvez que gera o insólito percorrer de
quem não vai vencer. Somos perdedores natos, que juram que venceram alguma
coisa, somos o fracasso dos fracassos, o circo de horrores.
Apneia de vida sem
fluxo, segmento básico do fracasso absoluto, somo somente ratos do esgoto sem
memórias sem conforto. Amantes da irrealidade e do que faz pensar, a se a minha
vida fosse diferente e se tudo vai mudar. Mas nada muda o tempo todo,
felicidade passageira e confrontos incomuns, lutas que não são verdadeiras, pátria
que não te leva a lugar algum.
Como dizia Augusto
dos Anjos em
Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundíssimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme — este operário das ruínas —
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há-de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
Não somos nada, nunca seremos nada,
morreremos sem ser nada, achando que somos alguma coisa.
- Fernando Pessoa - TABACARIA
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


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